O que é Meditação?
Só existe um problema, o qual é a causa de todos os outros: o tempo. “Tempo” é o verdadeiro sinônimo de inferno. O ego, esse falso Eu, só existe no tempo. Alojado no ontem e no amanhã, o ego busca sugar todo o nosso verdadeiro Eu, não deixando nem traço do agora.
O Divino, por sua vez, só pode existir fora do tempo. Não é por acaso que, na Bíblia, Deus se denomina “Eu sou”. De fato, Deus só pode ser agora. Na verdade, se conseguíssemos ultrapassar a ilusão do tempo, nem usaríamos a palavra “agora”. Se não há passado nem futuro, por que a palavra “agora”? Então a frase ficaria assim: Deus É.
A escrita da fórmula química de um perfume não é o seu aroma, assim como a partitura de uma sinfonia não faz o ar vibrar harmonicamente até nossos ouvidos. Assim também falar da busca ao Divino não é buscá-lo (muito menos é encontrá-lo). Falar sobre isso é impossível, ou, na melhor das hipóteses, absurdo. É como a imagem Zen de “bater palmas com uma só mão”.
A única maneira de falar de Deus é calar.
A única forma de descrever o caminho espiritual é sentir os passos.
Mas acontece que só podemos caminhar por essa trilha, quando paramos.
Não parece absurdo?
Domingo à noite, tomei meu prato de sopa como nunca antes. Estive presente totalmente no ato de tomar a sopa. Agradeci a Deus por aquele alimento, senti quanta luz, água, terra e ar foram necessários para que aqueles feijões liquidificados chegassem à minha mesa, senti a sagrada e assombrosa dádiva que estava prestes a acontecer: aquela sopa iria virar Odair. Sim, aquele caldo iria se transformar em meu corpo, no qual eu iria amar, sofrer, sorrir, chorar. Poderia existir milagre maior? Passeei com a colher por aquele lago e recolhi uma porção fumegante, que banhou minha boca, cobrindo minha língua, descendo pela garganta. Demorei para dar a segunda colherada, sentindo a sopa invadindo minhas entranhas. O mundo, naquele momento, estava circunscrito ao meu “tomar sopa”. Nada havia para trás, nada para a frente, só aquele momento.
Dias depois, caí no erro de contar para um amigo como foi maravilhosa minha experiência de tomar sopa. Ele deu risada, fez gozação. Ele fez a mesma coisa que eu teria feito, meses atrás. Não me chateei com ele, mas sim por sentir como é impossível transmitir algo para outra pessoa, principalmente quando esse algo é uma mudança de percepção.
Confesso que chego a (alegremente) me assustar com as experiências que o “viver no momento presente” vem trazendo para mim. E o susto é maior, ainda, quando sei que não caminhei nem um milésimo de milésimo do milésimo do caminho...
Não tenho nenhuma autoridade para falar de busca espiritual, nenhuma, mas vou me atrever a fazer um convite: ao tomar sua próxima refeição, esteja totalmente presente. Transforme-se no “tomar a refeição”. Esteja presente, também, no banho, no caminhar, no amar, no respirar.
Houve tempos em que eu pensava que sabia muito.
Hoje, sei que quem pensava assim era só o meu ego. Hoje, eu (Eu, mesmo) percebo que cada vez mais sei cada vez menos.
Mas sinto cada vez mais.
Meditação é.