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Olho ao redor e vejo dois desfiles. Um é o das pessoas que buscam alcançar, desesperadamente, o poder, a fama, o sucesso, a vitória. O outro é o das que tudo fazem para não perder o poder, a fama, o sucesso, a vitória que alcançaram.
Enquanto isso, na contramão do nosso mundo, minha busca é outra: trilhar o caminho que leva à iluminação, um caminho tortuoso, que tem a humildade como ingresso, a perseverança como equipamento, o abandono como guia.
Enquanto as pessoas daqueles desfiles buscam brilhar no nosso mundo, eu me contento, por exemplo, com experiências de conexão com as plantas que cercam minhas caminhadas diárias...
Seria eu apenas mais um maluco?
Quando comecei, anos atrás, a buscar a iluminação, cheguei a ler advertências sobre os perigos dessa busca. Diziam que, quanto mais o buscador desperta do sono existencial em que a Humanidade está mergulhada, mais ele percebe que as pessoas estão – de fato – dormindo. Também diziam que, quanto mais o buscador desmonta seu pequeno ego, deixando vir à tona seu verdadeiro Eu, mais ele sente que não consegue mais se encaixar no que a Humanidade considera “normal”.
Tenho certeza de que caminhei apenas um milésimo de milésimo de milésimo do caminho que leva ao despertar espiritual, à Luz, a Deus; mas caminhei. E esse pouco que avancei já me leva a olhar para as pessoas que me cercam e constatar – verdadeiramente constatar - que elas estão dormindo; não metaforicamente falando, mas dormindo, mesmo. É claro que também constato que eu ainda durmo, mas percebo que minhas pálpebras já estão tremendo um pouco, pelo menos.
Mesmo tendo caminhado tão pouco, já me é difícil aplaudir o falatório dos pequenos egos que me cercam. É claro que meu ego também é tagarela, mas à vezes o meu Eu já consegue sussurrar algo.
Sinto que aquelas pessoas desfilando são, sim, vencedoras para o nosso mundo. Mas também sinto que eu não estou louco. Simplesmente elas, como em Matrix, escolheram a pílula de uma cor, enquanto eu escolhi a de outra.
E confesso que tenho plena certeza de ter escolhido a pílula certa.
Citando novamente Matrix: um personagem, enquanto come um belo filé, diz saber que aquele bife era uma ilusão, uma mentira, mas frisa que ele era muito gostoso.
Os pequenos egos são, aparentemente, gostosos, aconchegantes, fontes de prazer. Mas são pura mentira...
Já o verdadeiro Eu pode até incomodar. Mas é toda a Verdade.
Eu escolheria, outra vez, a mesma pílula que escolhi.